quinta-feira, 15 de julho de 2010

A Fórmula de Deus


José Rodrigues dos Santos

Talvez a mais bela surpresa literária que tive até hoje! Não sendo um apreciador de romances e talvez menos ainda um admirador do trabalho deste jornalista, tenho de admitir que este seu livro é uma história interessante e recheada de boa investigação científica.
O livro é um romance na sua essência, no entanto o enredo desenrola-se num novelo científico interessante que nos leva a ver o mundo com outros olhos. Tenho que admitir que a parte final talvez seja ficcção científica pura (ou talvez não...), mas globalmente a ciência está bem retratada, bem explicada e bem fundamentada através de diálogos curiosos, como este:

“Mas os gafanhotos são máquinas naturais. Os computadores são máquinas artificiais.”
[...]
“Olha ali para as aves. Os ninhos que eles constroem nas árvores são naturais ou artificiais?”
[...]
“São naturais, claro.”
[...]
“Então tudo o que o homem faz também é natural. Nós, que temos um conceito antropocêntrico da natureza, é que dividimos tudo entre coisas naturais e coisas artificiais, sendo que definimos que as artificiais são feitas pelos homens e as naturais feitas pela natureza, pelas plantas e pelos animais. Mas isso é uma convenção humana. A verdade é que, se o homem é um animal, tal como as aves, então é uma criatura natural, certo?”
[...]
“Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural.”
[...]
“O que eu quero dizer é que tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objectos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objectos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais.”


A história envolve um casal apaixonado, um professor desaparecido, viagens ao Irão e ao Tibete, perseguições ao estilo Indiana Jones, conspirações quase Kafkianas e constantes parêntisis científicos tipo Bill Bryson.
É um livro interessante, uma história cativante. A leitura recomenda-se e é perfeito para quem gosta de romances e se interessa pela ciência, mas que não consegue ler os entediantes livros puramente científicos.
...
“É verdade que as leis do universo têm os atributos que nós geralmente relacionamos com Deus, mas isso acontece por razões naturais, não por razões sobrenaturais. As leis do universo têm esses atributos porque é essa a sua natureza. Por exemplo, elas são absolutas porque não dependem de nada, afectam os estados físicos mas não são afectadas por eles. São eternas porque não mudam com o tempo, eram as mesmas do passado e continuarão certamente a ser as mesmas no futuro. São omnipotentes porque nada lhes escapa, exercem a sua força em tudo o que existe. São omnipresentes porque se encontram em qualquer parte do universo, não há umas leis que se aplicam aqui e outras diferentes que se aplicam ali. E são omniscientes porque exercem automaticamente a sua força, não precisam que os sistemas as informem da sua existência.”
...
“A origem das leis do universo constitui um grande mistério. É verdade que essas leis têm todos os atributos que normalmente nós conferimos a Deus [...] Mas, atenção, o facto de não conhecermos a sua origem não implica necessariamente que elas provenham do sobrenatural. [...] usamos o sobrenatural para explicar o que ainda não sabemos, mas que tem explicação natural. Se usarmos o sobrenatural de cada vez que não sabemos algo, estamos a recorrer ao Deus-das-lacunas. Daqui a algum tempo descobrir-se-á a verdadeira causa e nós fazemos figura de parvos. A Igreja, por exemplo, fartou-se de usar o Deus-das-lacunas para explicar coisas que antigamente não tinham explicação, e depois sofreu o enorme embaraço de ter de se desdizer quando foram feitas descobertas que desmentiam a explicação divina. Copérnico, Galileu, Newton e Darwin são os casos mais conhecidos. [...] existe um determinado número de propriedades do universo que me impedem de afirmar liminarmente que Deus não existe. A questão da origem das leis fundamentais é uma delas. A sua existência serve para nos lembrar que se esconde um grande mistério por detrás do universo.”

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