segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pode a literatura pôr fim a uma vida de crime?


Nos Estados Unidos da América, vingou um programa que se chama Mudando Vidas através da Literatura: em vez de mandar o réu para a prisão, a juiz manda-o ler e discutir boa literatura - Em Portugal, não há nada parecido.

Robert Waxler, professor de Inglês na Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, acabara de jogar uma partida de ténis com Bob Kane, juiz do tribunal distrital de New Bedford. Sentaram-se, ainda a transpirar, para conversar um pouco. O magistrado queixou-se da Justiça, que já lhe parecia uma espécie de torniquete do sistema prisional: prendia e libertava e tornava a prender. O amigo, dono de uma fé inabalável no poder da literatura, viu ali uma oportunidade: "Vamos fazer uma experiência. Vais pegar em oito homens que te apareçam pela frente nas próximas semanas e, em vez de os mandares para a cadeia, manda-los a um seminário de literatura na universidade. Eu arranjo a sala, escolho os livros e oriento as discussões." O académico recordou aquele episódio numa entrevista que deu à Mass Humanities. Fê-lo enfatizando a coragem do juiz por admitir que ler e discutir boa literatura podiam ser uma alternativa à prisão - sem qualquer evidência científica ainda. Pediu-lhe para escolher "rapazes duros". E ele, com a ajuda do técnico de reinserção social Wayne St. Pierre, escolheu oito homens, no mínimo com o 8.º ano de escolaridade, que somavam 145 condenações.

Esta é a génese do programa Mudando Vidas através da Literatura, que arrancou em 1991 em Massachusetts e funciona agora em diversos estados norte-americanos - incluindo o Texas, senhor de uma das maiores taxas de encarceramento do planeta e um dos que mais aplicam a pena de morte. Em quase 20 anos, milhares de condenados leram e debateram obras como O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. "As histórias funcionam como um espelho", explicou Robert Waxler ao jornal New York Times. Ao lê-las, uma pessoa pode perceber quem é e o que quer ser. Não só os condenados, também os técnicos de reinserção social e os juízes que participam nas sessões.

O modelo diversificou-se. A par das turmas masculinas, surgiram as femininas e as mistas. Em vez de seis sessões em 12 semanas, algumas fazem sete em 14 ou dez em dez. Há quem tenha trocado a novela pelo ensaio, o conto ou a poesia. E até quem tenha levado o programa para trás das grades. O ideólogo vê em tudo isto uma força. Parece-lhe que o essencial é usar a literatura - deixar que a palavra faça as pessoas mais pessoas. O juiz Joseph Dever, do tribunal distrital de Lynn, marca presença nos seminários pensados para mulheres no Colégio Middlesex. "Eu chamo-lhe a alegria do meu juízo", comentou com a Read Fordham Magazine. "Normalmente, à terceira semana, uma pessoa está a falar de uma personagem e outra diz: "Oh meu Deus, isso sou eu!"" Tem reflectido muito sobre isto: "Muitas pessoas que cometem crimes estão absorvidas por si próprias. Ao mesmo tempo, têm pouca auto-estima. O que o programa faz é atacar esse problema directamente. Ao ler estes livros e ao identificarem-se com as personagens, passam a ver a vida de uma forma mais objectiva."

Grande parte das mulheres com que se cruza naquela sala foi condenada por diversos crimes - como posse, consumo ou tráfico de droga, prostituição, condução sob efeito de álcool. Como é que decide quem é que entra na cadeia e quem é que entra ali? "Não há nada de matemático. Tem de haver um grau elevado de motivação e um grau mínimo de literacia."

Surpreendem alguns testemunhos. Esta semana, o jornal britânico The Guardian contava a história de Mitchell Rouse, que enfrentava uma sentença de 60 anos por droga (reduzíveis a 30, se se confessasse culpado). O técnico de raio-X experimentava um stress laboral severo. Recorreu ao consumo de anfetaminas para aguentar as 80 horas de trabalho semanais no hospital. A sua vida degradou-se. Já a temer vê-lo morto, a mulher alertou as autoridades. Cinco anos volvidos, ele acha que lhe aconteceu "um milagre": "O programa mudou a maneira como olho para a vida. Fez-me acreditar no meu potencial. No grupo, não estás enganado, também não estás necessariamente certo, mas a tua opinião é tão válida como a de qualquer outro." O coordenador do seu grupo, Larry Jablecki, da Universidade de Rice, em Houston, socorre-se de textos de Sócrates, Platão, Stuart Mill. Mitchell, que deixou as drogas, recuperou a família e trabalha na construção civil, adorou as ideias de Mill e já pensa em fazer um doutoramento em Filosofia.

Estranho? O Mudando Vidas através da Literatura parece "menos exótico", quando se sabe que muitas sentenças forçam à frequência dos 12 passos, um programa de auto-ajuda muito usado no tratamento de dependências químicas ou compulsões, escrevia o New York Times. A diferença é que, aqui, a narrativa não resulta das vivências dos participantes.

Podia um programa destes funcionar em Portugal? Podia, no âmbito da suspensão da execução de pena de prisão, respondem António Martins, presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, e Rui Cardoso, secretário-geral do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. De acordo com o Código Penal, um tribunal pode suspender uma pena até cinco anos, "se concluir que a simples censura do facto e a ameaça da prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da punição". E, nesse caso, pode mandar a pessoa cumprir deveres ou observar regras de conduta e até determinar que a medida seja acompanhada de regime de prova - ou seja, de um plano de reinserção social que deve ser pensado caso a caso e vigiado por um técnico. Os deveres podem passar por pagar uma indemnização ao lesado ou dar-lhe uma satisfação moral; e as regras de conduta podem passar por não exercer determinada profissão ou frequentar actividades ou programas - por exemplo, fazer um tratamento de toxicodependência.

Não há, nos programas previstos, algo parecido com o Mudando Vidas através da Literatura. Mas nada, na lei, impede a Direcção-Geral de Reinserção Social de o criar, torna Rui Cardoso. E de o propor. "Tudo o que sejam medidas alternativas à prisão pode ser útil", comenta o psicólogo criminal Carlos Poiares. E são conhecidos os efeitos terapêuticos das várias formas de arte. Abundam, de resto, exemplos de recurso à arte dentro das cadeias. No Estabelecimento Prisional do Porto apareceu o coro Ala dos Afinados, impulsionado pelo Serviço Educativo da Casa da Música, por exemplo. E, ainda em Maio, 30 reclusos deram corpo a um espectáculo de "teatro do oprimido", projecto coordenado por Hugo Cruz, da associação Pele - Espaço de Contacto Social e Cultural, integrado na décima edição do Imaginarius, Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira.

Reincidência diminui

António Martins pensa em "pessoas que, enquanto crianças e jovens, não tiveram uma educação que lhe permitisse adquirir os valores adequados, ter autocrítica sobre os seus comportamentos". E admite que a leitura possa levá-las por esse caminho. O indivíduo confronta-se com a vida heróica de uma personagem e algo se altera dentro dele. "Pode ganhar consciência de que o crime não é um destino. Se calhar, é fruto de circunstâncias, mas há a opção de continuar ou de parar e ter uma nova vida - se calhar, de sacrifício, de dificuldade."

Parece claro que uma coisa destas não serve para qualquer um. "Tem de saber interpretar textos para haver identificação", sublinha Carlos Pinto de Abreu, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados. "A leitura obriga a uma grande capacidade de abstracção. [Mudar através dela] implica parar, pensar, fazer alguma projecção."

"Não se pode agir por palpite", como diz Rui Cardoso. "É preciso aferir os resultados." E não foram tudo rosas nos EUA. Robert Waxler refere pais chocados por haver condenados a frequentar seminários que os filhos têm de pagar. Aos oponentes diz que o Estado gasta 500 dólares por cabeça, em vez de gastar três mil por cada ano de prisão. E que a reincidência diminui para metade. Mas o estudo que dá tal resultado foi feito com uma amostra de 100 indivíduos.E a exigência ao nível da literacia torna o grupo selecto. Mesmo assim, o Reino Unido já está a aplicar uma versão do programa em diversas cadeias.

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=262236

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Um ouriço na tempestade


Stephen Jay Gould
Um dos vários livros deste biólogo genial do século XX. Infelizmente S. Jay Gould já não se encontra entre nós. Ele foi um dos maiores génios da biologia de sempre, especializado em biologia evolutiva, e talvez o maior e melhor conhecedor de Darwin. Era professor de biologia, geologia e história da ciência na Universidade de Harvard. Senhor de um nível de cultura elevado, profundamente conhecedor das teorias da evolução e da História que as envolve, Stephen Jay Gould desmascara uma série de verdades neste livro apaixonante. A história da dupla hélice de Watson e Crick e o aproveitamento do génio de Barbara McClintock, as teorias absurdas e chocantes de Arthur Jensen e a vida de Ernest Everett Just são alguns dos temas desenvolvidos neste livro.
Livro divertido onde se aprende muito, escrito por alguem que sempre soube ser um bom crítico. Um Ouriço na Tempestade é uma recensão de vários livros.
...
" Darwin, por exemplo, teve uma bem sucedida carreira de geólogo antes de ter publicado uma palavra que fosse acerca da origem das espécies, mas quantos dos seus admiradores e detractores saberão que foi ele quem resolveu o problema da origem dos atóis de coral?"
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"Se conseguirmos, em seguida, admirar os pandas por aquilo que são, e até aprender com eles algumas das lições que a diversidade da natureza sempre tem a dar, entenderemos enfim, e com grande vantagem para nós, quer em termos espirituais quer em termos práticos, aquilo a que Huxley chamava, na linguagem do seu tempo, «o lugar do homem na natureza»."

A Poluição Invisível


A Poluição Invisível
Mohamed Larbi Bouguerra
Um livro terrorificamente educativo. Como o próprio título indica, este livro fala-nos da poluição que costumamos ouvir falar, daquela mais desapercebida, mais esquecida e, muitas vezes, negligenciada.
Abrangendo temas como a ética, as embalagens alimentares, os poluentes que afectam a nível reprodutor ou ainda os metais pesados e os organoclorados, neste livro navegamos por quase todas as fontes de poluição química. O autor fala-nos de casos reais (incluíndo um na Madeira!), do funcionamento dos princípios que sustentam a investigação, da relação universidades - empresas (e sua frequente promisquidade), enquadrando sempre tudo no seu contexto histórico, social e económico. É um livro interessante para o público em geral e, penso eu, fundamental para todos aqueles que desejam dedicar-se e trabalhar na área ambiental. Conhecer melhor a realidade do nosso mundo é ter mais certezas de que o próximo passo seja mais acertado. A realidade que nos dá a conhecer o autor é habitualmente camuflada e pouco divulgada para a opinião pública. Confesso que desejei emigrar para Marte mais ou menos a meio do primeiro capítulo, mas convenhamos que a intensidade do livro (e talvez a sensação de alarmismo que se desprende na sua leitura) é própria de algo cujo objectivo é abrir a mente e os olhos para uma ideia nova, real e preocupante. O mundo não está à beira do colapso como tanto fanáticos têm defendido, mas seguramente que está doente, cansado, intoxicado e algo temos de reformular na nossa postura e posição perante aquela que é no fundo a nossa única casa.

A Fórmula de Deus


José Rodrigues dos Santos

Talvez a mais bela surpresa literária que tive até hoje! Não sendo um apreciador de romances e talvez menos ainda um admirador do trabalho deste jornalista, tenho de admitir que este seu livro é uma história interessante e recheada de boa investigação científica.
O livro é um romance na sua essência, no entanto o enredo desenrola-se num novelo científico interessante que nos leva a ver o mundo com outros olhos. Tenho que admitir que a parte final talvez seja ficcção científica pura (ou talvez não...), mas globalmente a ciência está bem retratada, bem explicada e bem fundamentada através de diálogos curiosos, como este:

“Mas os gafanhotos são máquinas naturais. Os computadores são máquinas artificiais.”
[...]
“Olha ali para as aves. Os ninhos que eles constroem nas árvores são naturais ou artificiais?”
[...]
“São naturais, claro.”
[...]
“Então tudo o que o homem faz também é natural. Nós, que temos um conceito antropocêntrico da natureza, é que dividimos tudo entre coisas naturais e coisas artificiais, sendo que definimos que as artificiais são feitas pelos homens e as naturais feitas pela natureza, pelas plantas e pelos animais. Mas isso é uma convenção humana. A verdade é que, se o homem é um animal, tal como as aves, então é uma criatura natural, certo?”
[...]
“Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural.”
[...]
“O que eu quero dizer é que tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objectos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objectos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais.”


A história envolve um casal apaixonado, um professor desaparecido, viagens ao Irão e ao Tibete, perseguições ao estilo Indiana Jones, conspirações quase Kafkianas e constantes parêntisis científicos tipo Bill Bryson.
É um livro interessante, uma história cativante. A leitura recomenda-se e é perfeito para quem gosta de romances e se interessa pela ciência, mas que não consegue ler os entediantes livros puramente científicos.
...
“É verdade que as leis do universo têm os atributos que nós geralmente relacionamos com Deus, mas isso acontece por razões naturais, não por razões sobrenaturais. As leis do universo têm esses atributos porque é essa a sua natureza. Por exemplo, elas são absolutas porque não dependem de nada, afectam os estados físicos mas não são afectadas por eles. São eternas porque não mudam com o tempo, eram as mesmas do passado e continuarão certamente a ser as mesmas no futuro. São omnipotentes porque nada lhes escapa, exercem a sua força em tudo o que existe. São omnipresentes porque se encontram em qualquer parte do universo, não há umas leis que se aplicam aqui e outras diferentes que se aplicam ali. E são omniscientes porque exercem automaticamente a sua força, não precisam que os sistemas as informem da sua existência.”
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“A origem das leis do universo constitui um grande mistério. É verdade que essas leis têm todos os atributos que normalmente nós conferimos a Deus [...] Mas, atenção, o facto de não conhecermos a sua origem não implica necessariamente que elas provenham do sobrenatural. [...] usamos o sobrenatural para explicar o que ainda não sabemos, mas que tem explicação natural. Se usarmos o sobrenatural de cada vez que não sabemos algo, estamos a recorrer ao Deus-das-lacunas. Daqui a algum tempo descobrir-se-á a verdadeira causa e nós fazemos figura de parvos. A Igreja, por exemplo, fartou-se de usar o Deus-das-lacunas para explicar coisas que antigamente não tinham explicação, e depois sofreu o enorme embaraço de ter de se desdizer quando foram feitas descobertas que desmentiam a explicação divina. Copérnico, Galileu, Newton e Darwin são os casos mais conhecidos. [...] existe um determinado número de propriedades do universo que me impedem de afirmar liminarmente que Deus não existe. A questão da origem das leis fundamentais é uma delas. A sua existência serve para nos lembrar que se esconde um grande mistério por detrás do universo.”